“Eu não sei português.”
Quantas vezes você já disse ou pensou isso? Se você está lendo este texto agora, já posso te garantir uma coisa: você está errado. Você sabe português sim, e provavelmente sabe muito mais do que imagina.
O problema não é falta de conhecimento. O problema é que ninguém nunca te ensinou a reconhecer e valorizar o que você já sabe.
Você Fala Português Todo Dia
Pense bem: você acorda, fala com sua família, vai trabalhar, conversa com colegas, resolve problemas, conta histórias, faz piadas, dá conselhos. Você usa a língua portuguesa o tempo todo para se comunicar, expressar sentimentos, negociar, ensinar coisas para seus filhos.
Isso é dominar a língua portuguesa.
Você organiza suas ideias, escolhe palavras, monta frases que fazem sentido. Você sabe a diferença entre “vou ali” e “volto já”. Você entende quando alguém está sendo irônico ou está falando sério. Você consegue explicar o caminho para um estranho na rua.
Tudo isso é conhecimento linguístico sofisticado. Você aprendeu isso vivendo, observando, conversando. E ninguém pode tirar isso de você.
A Diferença Entre Falar e Escrever
“Ah, mas eu não sei escrever direito.”
Calma. Falar e escrever são habilidades diferentes, mas não são opostas. São primas. Quem fala bem tem metade do caminho andado para escrever bem.
A escrita é apenas a fala “vestida de gala” para certas ocasiões. No dia a dia, você fala de um jeito. Numa carta formal, você escreve de outro. Mas a base é a mesma: comunicar uma ideia.
Veja este exemplo:
Falando com um amigo:
“Cara, aquele chefe lá do trabalho é fogo. Não aguento mais, velho. Todo dia a mesma coisa.”
Escrevendo uma carta:
“Venho manifestar minha insatisfação com as condições de trabalho. A situação tem se tornado insustentável.”
Percebe? As duas frases dizem a mesma coisa. Você mudou as palavras e o tom, mas a capacidade de expressar sua frustração estava lá nos dois casos. Você já sabia se comunicar. Só precisava adaptar.
Você Já Conhece Mais Gramática do que Pensa
“Eu não sei gramática.”
Sabe sim. Deixa eu provar:
Teste 1: O que soa melhor?
- A) “Eu vi ela ontem na feira.”
- B) “Ontem na feira eu ela vi.”
Você escolheu a letra A, certo? Parabéns! Você conhece a ordem natural das palavras em português (sujeito + verbo + complemento). Isso é gramática.
Teste 2: Complete a frase: “Se eu _______ dinheiro, eu viajaria.”
- teria
- tivesse
Você pensou em “tivesse”, não foi? Isso é o modo subjuntivo, um dos assuntos mais complicados da gramática. E você usa naturalmente!
Teste 3: O que está errado aqui? “As menino foi na escola.”
Você sentiu um incômodo, né? É porque seu ouvido sabe que o correto é “As meninas foram” ou “O menino foi”. Você conhece concordância, mesmo sem ter decorado a regra.
Conclusão: Você não precisa saber o nome das regras para aplicá-las. Sua cabeça já internalizou muita coisa. O que a escola faz é apenas dar nome e organizar o que você já sabe.
O Preconceito Linguístico É Real
Vamos falar a verdade: existe preconceito com quem não estudou ou quem fala “diferente”. Mas isso não significa que você fala “errado”. Significa que existe uma forma de português considerada “padrão” que é cobrada em documentos, provas, ambientes formais.
Importante entender:
- Sua forma de falar não é errada. É uma variante legítima do português. Milhões de brasileiros falam como você.
- O português padrão é uma ferramenta. É como uma roupa social: você não usa todo dia, mas é útil ter uma no armário para certas ocasiões.
- Aprender o padrão não é trair suas origens. É ampliar suas possibilidades. Você pode falar de um jeito com a família e de outro jeito numa entrevista de emprego. Isso se chama adequação linguística, e é sinal de inteligência.
Quem fala “nós vai” ou “os menino” não é burro. Está apenas usando uma forma de português diferente da norma culta. A questão é: em alguns contextos, dominar a norma culta abre portas. E você tem todo o direito de atravessar essas portas.
Seus Erros São Pistas do Que Você Já Sabe
Sabe aquela coisa de “escrever errado”? Até seus erros mostram conhecimento.
Exemplo: alguém escreve “ezemplo” em vez de “exemplo”.
Erro ou lógica? Na verdade, essa pessoa está aplicando uma regra correta: a letra X pode ter som de Z (exame, exercício). O “erro” mostra que a pessoa entendeu a lógica, só não memorizou as exceções ainda.
Outro exemplo: “fazendo” em vez de “fazendo”… espera, esse está certo! Mas e “faser” em vez de “fazer”? De novo, a pessoa está aplicando lógica: palavras terminadas com som de “er” muitas vezes se escrevem com ER (comer, beber, vender). O português que é complicado e cheio de exceções.
Seus “erros” são inteligentes. Eles mostram que seu cérebro está tentando encontrar padrões. É assim que se aprende qualquer coisa.
O Conhecimento que Vem da Vida
Você tem um conhecimento que muita gente que só estudou em livros não tem: vocabulário da vida real.
Você sabe o nome de:
- Ferramentas de trabalho
- Ingredientes de cozinha
- Peças de carro ou máquinas
- Documentos e formulários
- Problemas de saúde
- Processos do dia a dia
Você conhece expressões, ditados populares, jeitos de falar que carregam sabedoria. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” é literatura oral. É poesia. É filosofia.
Você é um especialista na língua portuguesa do cotidiano. E isso vale muito.
Como Transformar o Que Você Sabe em Escrita
Agora que você já reconhece seu conhecimento, vamos ao pulo do gato: como transformar sua fala em escrita?
Estratégia 1: Fale primeiro, escreva depois
Antes de escrever, fale em voz alta o que você quer dizer. Grave no celular se precisar. Depois, escreva o que você falou, ajustando o tom.
Exemplo:
Falado: “Mano, tô precisando muito desse emprego. Tenho experiência pra caramba com atendimento.”
Escrito: “Tenho grande interesse nesta vaga. Possuo ampla experiência na área de atendimento ao cliente.”
Estratégia 2: Pense em quem já escreve parecido com você
Mensagens de WhatsApp, posts no Facebook, legendas de Instagram. Você já escreve! A diferença é só o contexto.
Estratégia 3: Use o que você sabe como base
Não tente escrever “difícil”. Escreva claro. Use as palavras que você domina. Frases simples são melhores que frases complicadas e confusas.
Compare:
❌ Complexo demais: “Venho por meio desta solicitar vossa compreensão quanto à impossibilidade de comparecimento.”
✅ Claro e eficiente: “Não poderei comparecer à reunião do dia 20. Peço compreensão.”
As duas estão corretas, mas a segunda é mais honesta e direta.
Exercício: Reconheça Seu Poder
Pegue um papel e responda:
- Três situações em que você se comunica bem no dia a dia:
(Exemplo: explicar uma receita, dar instruções no trabalho, acalmar uma criança) - Três palavras “difíceis” que você já conhece e usa:
(Exemplo: constrangimento, hipocrisia, perseverança) - Uma história que você conta bem:
(Qualquer história: algo engraçado, um perrengue, uma superação)
Pronto. Você acabou de listar provas concretas do seu domínio da língua portuguesa. Isso é real. Isso é seu.
A Escrita Não É Um Dom, É Uma Prática
Ninguém nasce sabendo escrever. Nem os escritores famosos. A diferença é que eles praticaram mais.
Mas sabe o que eles têm que você também tem? Ideias, experiências, histórias pra contar.
A língua portuguesa é sua ferramenta. Você já sabe usá-la. Agora é só lapidar, praticar, ganhar confiança.
Cada texto que você escreve, cada mensagem, cada lista de compras, cada bilhete é um exercício. Você está ficando melhor sem perceber.
Você Tem Voz, Você Tem Valor
Este texto não é para te convencer de que você não precisa estudar. Claro que estudar ajuda. Claro que aprender a norma culta abre portas.
Mas este texto é para você entender que você não parte do zero.
Você chega na sala de aula com uma mochila cheia de conhecimento linguístico. Você chega com décadas de experiência se comunicando, resolvendo problemas, ensinando, aprendendo.
O professor não vai “te dar” a língua portuguesa. Você já tem ela. O professor vai te ajudar a expandir, a polir, a adaptar para novos contextos.
Você já é fluente em português. Agora você só vai aprender novos sotaques dessa mesma língua.
Mensagem Final
Da próxima vez que você pensar “eu não sei escrever”, lembre-se:
✅ Você fala português fluentemente
✅ Você organiza ideias complexas todo dia
✅ Você conhece milhares de palavras
✅ Você já sabe gramática intuitivamente
✅ Você tem histórias valiosas pra contar
Você não está aprendendo do zero. Você está expandindo o que já sabe.
E isso muda tudo.
Acredite no seu conhecimento. Ele é real, é poderoso e é seu por direito.
Você sabe mais do que pensa. Muito mais.
